Memórias 404 (última) Nos tornamos todos reféns das inovações técnologicas

26.01.2019

O cinema é um traço marcante na minha vida pois quando jovem não gostava de nada. Não fui um jovem comum ou mesmo fácil. Minhas escolhas foram sempre complicadas e embaraçadas pelas tantas imobilidades e dores na infância. Nunca consegui relaxar de um permanente esgotamento físico que sempre me acompanhou. Vivi e ainda vivo um certo enclasuramento na dor da história reverberando em tudo! Ainda assim fiz, fiz muito e continuo fazendo. Tô com mais de 50 filmes feitos! Acho mesmo que o meu cinema ao romper com certezas e hierarquias torna-se referência para um Brasil pensado como análise histórica. E isso só foi possível pela presença de verdadeiros amigos que nunca traíram a experimentação como questão. Também sempre odiei toda e qualquer submissão a traição e ao mercado. Ambos cúmplices do entulho burocrático trazido pelo capital. Eu mesmo trabalhei com um burro que não sabia que eu havia passado duas décadas brigando com a censura! E você só descobre que o cara é burro quando tenta te trair. Os seres humanos burros TRAEM! Talvez sejam mais burros que humanos. Fiz sim um cinema de desmontagens. Nunca me interessou o naturalismo. Serviu e serve a quem? Se nos aprofundarmos vamos chegar no obscurantismo dos "podres poderes" da república. Nunca me preocupei em ganhar fácil enganando o público. Sempre achei o público a representação de muitas linguagens. Nos tempos do INC o Jaime Rodrigues ficava assombrado com a minha despreocupação quanto ao julgamento da crítica. Eu ria e respondia: "-Eu não estou trabalhando com ela?" Minhas inquietações sempre passaram por outro registro. Nunca vi no Brasil, algum diretor sair fortalecido com uma crítica do seu cinema. Sempre preferi assumir a minha liberdade e seguir em frente! Não sou contra a crítica mas prefiro o sentido existencial do FAZER! Ou dos que fazem na contramão do cinema de mercado. Sempre gostei muito de trabalhar a estranheza das minhas ideias e imagens. Sempre me pareceu insano criar o previsível vendável como se fosse bosta enlatada. Antigamente era assim: na lata! Agora é Digital! Tudo pode ser deletado né? Nos tornamos todos reféns das inovações tecnológicas. Faz-se filmes mais baratos, mas o que se vê amedronta! O sistema Digital me parece o conto de fadas que quer dar certo para vender mais maquininhas e formar cineastas de ocasião sem nada para dizer. Ou defensores do cinema patronal. Aquele cinema de desacontecimentos para dar espaço aos muitos "Exterminadores do Futuro". Triste momento de nossas vidas! Luiz Rosemberg Filho/RÔ